30 de setembro de 2010

História do Capitalismo - Michel Beaud






 Introdução da Obra

Este livro nasceu de uma sólida convicção: não se pode compreender a época contemporânea sem uma análise das profundas modificações ocasionadas, nas sociedades do mundo inteiro, pelo desenvolvimento do capitalismo. Ele nasceu também da preocupação de apreender esse desenvolvimento em suas múltiplas dimensões: ao mesmo tempo econômico e político e ideológico; ao mesmo tempo nacional e multinacional/mundial; ao mesmo tempo libertador e opressor, destruidor e criador... Ele nasceu, enfim, da ambição de pôr em perspectiva um conjunto de questões indissociáveis e com muita freqüência estudadas isoladamente: a formação da economia política relacionada com a "longa marcha para o capitalismo"; a afirmação do ideal democrático contra os antigos regimes aristocráticos e, utilizando as novas instituições democráticas, a ascensão de novas classes dirigentes; o vínculo entre desenvolvimento dos capitalismos nacionais, fortalecimento dos movimentos operários e conquistas do mundo do trabalho; a extensão cada vez mais completa e complexa da dominação capitalista no mundo; a articulação entre dominação de classes e dominação de nações; as crises como indícios de desarranjos e bloqueios e como momentos de renovação: especialmente a "Grande Crise" atual. Poderemos seguir o encaminhamento cego que, em quatro séculos, leva dos conquistadores à pax britannica, dos banqueiros e negociantes de Gênova, Antuérpia e Amsterdã à Inglaterra, fábrica e banqueiro do mundo, da roca ao tear mecânico, do moinho de vento à máquina a vapor, de atividades principalmente mercantis e bancárias ao capitalismo industrial, de Maquiavel a Marx, de O Príncipe a O Capital. E depois, em um século, uma fascinante espiral nos arrasta: da hegemonia britânica à afirmação da potência americana, seguida de seu questionamento; dos progressos e vitórias do movimento operário à explosão de suas contradições diante das novas situações nacionais e mundiais; do carvão ao petróleo, à eletricidade e às novas energias; da mecanização e do taylorismo às grandes mudanças atuais da telemática e da robótica; das primeiras formas do capital financeiro à instalação de um sistema imperialista hierarquizado e diversificado; e, finalmente, através das seqüências vinculadas de prosperidade, de crise e de guerra, da "Grande Crise" de 1885-1893 até a "Grande Crise" dos anos 1970-1980. Num livro paralelo e, de algum modo, gêmeo, estudamos como, diante das grandes mudanças da Revolução Industrial e da Revolução Francesa, constitui-se a idéia do socialismo, como o movimento operário multiforme do século XIX se apoderou dessa idéia, mas também como a prova do real conduziu da Revolução de Outubro ao coletivismo de Estado. Ocasião de refletir sobre a natureza das formações sociais que se reclamam hoje do socialismo — tanto no Leste quanto no Oeste e no Terceiro Mundo — e sobre o que ainda pode ser, neste fim do século XX, um projeto socialista que leve em conta as lições do século passado e os temíveis desafios do século que virá.

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